Um dia eu era uma árvore,grande e forte,até ser derrubada e virar esse papel,um dia eu não tinha dono,era livre na minha limitação,agora sou dele.
Ele que não tem nome,mas se denomina "poeta da madrugada",que me acorda todo dia no mesmo horário para jogar palavras em mim e depois apagar tudo.
Ele que tem a barba por fazer e só não me rasgou ainda porque não teve coragem,ele me encara como se soubesse que eu consigo ser o que ele precisa,e eu fico quieto observando suas mãos trêmulas depois de mais uma dose de frustrações...
Ele só usa lápis comigo,caneta só em outros,os que ele rasga e joga na lata de lixo sem olhar para trás,eu me considero um pouco especial,pelo menos ele ainda me olha com certa esperança.
Eu não consigo encará-lo por muito tempo,me sinto desconfortável em reparar como a cada dia ele fica pior e mais focado em mim,queria que ele desistisse de uma vez e não me manchasse mais,mas parte do meu egoÃsmo implora para que ele volte mais tarde...
Ele sangra em mim,deixa sua alma marcada em cada extremidade e parece que só isso o faz bem,é cansativo para nós dois esse conjunto,mas parece necessário,um dia talvez ele não me precise mais e descarte como fez com meia dúzia de outros papéis,por enquanto eu sigo nessa rotina,no limite entre ser preciso e ser descartável...


